Poesia

Hoje aprendemos o que é uma poesia, depois fomos para casa pesquisar.
 Este é o resultado da nossa pesquisa com a ajuda dos nossos pais.

O gato

O gato aparece a noite
Com seu esquivo silêncio
de pessoas bem calculadas
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na coxa de suas patas.
O gato passeia a noite
com seu manto de toga
como se fosse um juiz
depressa resignados
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

Aníbal Beça

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta,
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta

Eu abro devagarinho
Para passar o menininho
Eu abro com cuidado
Para passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Para passar a cozinheira
Eu abro de repelão
Para passar o capitão

Só não abro para essa gente
Que diz (a mim pouco importa!…)
Que se uma pessoa é burra
É burra como um a porta.

Vinicius de Morais

Canta o búzio
seu choro baixinho
embala-o cantando
num sono pequenino
dorme o búzio
no seu buraquinho
caranguejo de prata
seu sono mais lindo
ouvido do mar
canta o teu choro
eu não quero estragar
teu sono mais lindo.

Anónimo

Uva – são três letras apenas
As desse nome bendito
Também o céu tem três letras
E nele cabe o infinito

Prima da aluna
Senhor policia
Venha cá
Venha ver
Mas sem demora:
O gato da dona Rosa
Comeu o maior peixe
Da canastra da dona Aurora

Senhor policia
Venha cá
Venha ver
Como isto é
O cão do senhor Antunes
Comeu o maior bife
Do talho da dona Zé

Senhor policia
Venha cá
Venha ver
Para tomar nota:
O papagaio do Senhor Prestes
Que se chama Barnabé
Fugiu da barbearia
E entrou, pelo seu pé
Na casa da Dona Berta.
António Mota

No céu azul
um pássaro voava
E ao mesmo tempo chilreava
Uma doce canção
De embalar
No cimo da árvore
No seu ninho cantava o pardal
Muito quentinho

Anónimo

Que tristeza

Pinheiro de Natal
Tão bonito, cintilante
Toda a gente te enfeitou
Estás catita e tão brilhante
À tua volta canções
Ninguém para o mundo quer mal
Todos te lançam sorrisos
E chamam arvore de Natal
Abrem-se lindas prendinhas
Os perus estão recheados
Os sinos tocam na igreja
Mas tens os dias contados

Depois da festa passada
Alguém no lixo o meteu
Pinheirinho de Natal
Que triste destino o teu
O que será de ti agora
Sem os enfeites de luz?
Sem as prendas e o Presépio
Como o Menino Jesus?
Fica o meu coração triste
Ao ver-te partir sozinho
Mas nada posso fazer…
Adeus, adeus pinheirinho.

Anónimo
O rato da cidade
E o rato do campo

Diz o rato da cidade
Quis convidar o do campo
Com toda civilidade
P’ra comer restos de frango.

Era num tapete persa
Que estavam postos os pratos
Quem isto lê já começa
A ter inveja dos ratos…

O banquete foi esmerado
Nada faltava: um primor!
Mas veio alguém perturba-lo
Quando estavam no melhor.

Súbito, à porta da sala
Ouviram barulho – e zás!
O da cidade dispara
E o do campo vai atrás.

Cessa a bulha, passa o perigo,
Voltam os dois aos seu posto
Diz o da cidade: «Amigo
Tornemos ao nosso almoço»

«Basta» lhe volve o compadre
«Vá você lá a casa, primo!
Não que eu tenha a veleidade
De viver em tanto mimo…
Mas lá, sem nada a temer,
Como, em paz e vivo à larga
Adeus… que é fraco prazer
O prazer que o medo estraga.»
Anónimo
Levava um jarrinho

Levava um jarrinho
Para ir buscar vinho
Levava um tostão
Para ir comprar pão
Levava uma fita para ir bonita

Correu atrás
de mim rapaz:
foi o jarrinho para o chão
perdi  o tostão, rasgou-se-me a fita
vejam que desdita!

Se eu não levasse o jarrinho
Nem fosse buscar vinho
Nem trouxesse a fita
Para ir bonita
Nem corresse atrás
de mim um rapaz
para ver o que eu fazia
nada disto acontecia.

Fernando Pessoa

A CAMÕES
Quando n’alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

Manuel Bandeira

Tenho Fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases ,como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

Naquela pastelaria
Naquela pastelaria
Já não sei como falar:
Pedi ao moço um cachorro
Deram-me um cão a ladrar.
 
Naquela pastelaria
Irritei-me, dei um berro:
Pedi um prego no pão
Deram-me um prego de ferro.
 
Naquela pastelaria
Quis um garoto beber:
Puseram um rapazinho
Num copo para aquecer.
 
Naquela pastelaria
Quando a conta quis pagar,
Vejam lá o que me trouxeram
Uma conta de colar!

Luísa Ducla Soares

Chuva
Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.
Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.
Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz
e até apaga a luz.
Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.
  Luísa Ducla Soares
Abecedário
A é a Ana, a cavalo numa cana.
B é o Beto, quer armar em esperto.
C é a Cristina, nada  fora da piscina.
D é o Diogo, com chichi apaga o fogo.
E é a Eva, olha o rabo que ela leva.
F é o Francisco, come as conchas do marisco.
G é a Graça, ai mordeu-lhe uma carraça!
H é a Helena, é preta, diz que é morena.
I é o Ivo, põe na mosca um curativo.
J é o Jacinto, faz corridas com um pinto.
L é o Luís, tem macacos no nariz.
M é a Maria, come a sopa sempre fria.
N é o Napoleão, dorme dentro do colchão.
O é a Olga, todos os dias tem folga.
P é a Paula, entra de burro na aula.
Q é o Quintino, que na missa faz o pino.
R é o Raul, a beber a tinta azul.
S  é a Sofia, engasgada com uma enguia.
T é a Teresa, come debaixo da mesa.
U é o Urbano, que caiu dentro do cano.
V é a Vera, com as unhas de pantera.
X é a Xana, caçando uma ratazana.
Z é o Zé, foi ao mar, perdeu o pé.

Luísa Ducla Soares
O Ratinho Musical

Meu quarto é um violino,
a minha rua um piano
junto ao largo do tambor
é que eu moro todo o ano.
Minha escada é uma harpa,
nos pratos da bateria
vou sempre matar a fome,
seja noite ou seja dia.
Para andar de carrossel
eu ponho um disco a girar.
Bato-lhe com a batuta
se um gato me vem caçar.
Para namorar as ratinhas
canto lindos madrigais
e em vez de notas de banco
uso notas musicais.

Luísa Ducla Soares

Os meninos educados

Os meninos educados
De manhã dizem «bom dia,
Bom-dia, senhor José,
Bom-dia, Dona Maria.»

Os meninos educados
De manhã dizem bom-dia,
Bom-dia, sol amarelo
Bom-dia, ribeira fria
Bom-dia, cães da cidade,
bom-dia, ó bicicletas,
bom-dia, de liberdade.

Os meninos educados
De manhã dizem bom-dia,
Bom-dia, lixo da praia
E cascas de melancia,
Bom-dia, guerra que matas,
Bom-dia, mesa sem pão,
Bom-dia, tecto de céu,
Bom-dia, voz sem coração.

Os meninos educados
De manhã dizem bom-dia
E partem como andorinhas
Em busca dum novo dia.

Luísa Ducla Soares

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